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Pessoas São Um Presente - R.Scbneider & A. Hartman
Pessoas São Um Presente R.Scbneider & A. Hartman Vamos falar de gente, de pessoas. Existe, acaso, algo mais espetacular do que gente? Pessoas são um presente. Alguns têm um embrulho bonito, como os presentes de Natal, Páscoa ou festa de aniversário. Outras vêm em embalagem comum. E há as que ficaram machucadas no Correio... De vez em quando chega uma registrada. São os presentes valiosos. Algumas pessoas trazem invólucros fáceis. De outras é dificílimo, quase impossível, tirar a embalagem. É fita durex que não acaba mais... Mas... a embalagem não é o presente. E tantas – pessoas se enganam, confundindo a embalagem com o presente. Por que será que alguns presentes são complicados para a gente abrir? Talvez porque dentro da bonita embalagem haja muito pouco valor. E bastante vazio, bastante solidão. A decepção seria grande. Também você amigo. Também eu, somos um presente para os outros. Você para mim. Eu para você. Triste, se formos apenas presente-embalagem: muito bem empacotado e quase sem nada, lá dentro: Quando existir verdadeiro encontro com alguém, no diálogo, na abertura, na fraternidade, deixamos de ser mera embalagem e passamos à categoria de reais presentes. Nos verdadeiros encontros de fraternidade, acontecem coisas muito comoventes e essenciais: mutuamente nos vamos desembrulhando, desempacotando, revelando. No bom sentido é claro. Você já experimentou essa imensa alegria de vida? A alegria profunda que nasce da alma, quando duas – pessoas se comunicam virando presente uma para outra? Conteúdo interno é o segredo para quem deseja tornar-se PRESENTE aos irmãos de estrada e não apenas – embalagem... A verdadeira alegria, que a gente sente e não consegue descrever, só nasce no verdadeiro encontro com alguém.
Escrito por raoniwolly às 00h03
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Pegadas na areia
Pegadas na areia Numa noite, eu tive um sonho: Sonhei que estava andando na praia, com o Senhor, e através do céu passavam cenas da minha vida. Para cada cena que se passava, percebi que eram deixados dois pares de pegadas na areia: um era o meu e o outro era do Senhor. Quando a última cena da minha vida passou diante de nós olhei para trás, para as pegadas na areia e notei que muitas vezes, no caminho da minha vida, havia apenas um par de pegadas na areia. Notei também, que isso aconteceu nos momentos mais difíceis e angustiosos do meu viver. Isso me entristeceu deveras, então, perguntei ao Senhor: “Senhor, Tu me disseste que, uma vez que eu resolvi Te seguir, Tu andarias sempre comigo todo o caminho, mas notei que, durante as maiores atribulações do meu viver, havia na areia dos caminhos da vida, apenas um par de pegadas. Não compreendo por que, nas horas que eu mais necessitava de Ti, Tu me deixastes”. O Senhor me respondeu: “Meu precioso filho, eu te amo e jamais te deixaria nas horas da tua prova e do teu sofrimento. Quando viste, na areia apenas um par de pegadas, foi exatamente aí que Eu, nos braços, carreguei-te”.
Escrito por raoniwolly às 00h00
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Idealização - Pedro Fernandes dos Santos
Idealização Pedro Fernandes dos Santos Se não tem Gosto, não há graça. - E se for graciosa? Não importa, Se não tem Juízo, é feia. Se não tem Gênio, não há forma. - E se for formosa? Não interessa, Se não tem Senso, é fera. Se tem Gosto, é bela; É linda como uma flor. Se tem Gênio é pura; É casta como um anjo. Se não tem Virtude, não há encanto. - E se for encantadora? Não importa, Se não tem Santidade, é má. Se não tem Caráter, não há charme. - E se for charmosa? Não interessa, Se não tem Nobreza, é vã. Se tem Virtude, é bendita; É nobre como uma rainha. Se tem Caráter, é cândida; É santa como uma virgem.
Escrito por raoniwolly às 13h42
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Relação entre o Imperativo Categórico e o Princípio da Autonomia da Vontade - Immanuel Kant
Cumpre escrever um discurso em torno da relação do imperativo categórico, entendido como uma lei apodítica (necessária, evidente e irrefutável) da razão prática, e o princípio da liberdade da vontade. Torna-se mister iniciar com o cânon da razão pura, neste contexto, a razão se coloca três perguntas: 1. Que posso saber?; 2. Que devo fazer?; 3. Que me é permitido esperar? (KANT, Immanuel. Crítica da Razão Pura. p.393). A segunda pergunta, em particular, nos interessa porque é somente prática. De modo geral, podemos afirmar que o prático é toda ação por obra e baseada na liberdade da vontade. Uma razão prática, fundamentada na liberdade, é necessariamente pura, pois caso contrário, a saber, contivesse algo de empírico, a supremacia da liberdade estaria comprometida. Assim, por exemplo, uma razão pragmática, que vai me remeter a um imperativo pragmático - que visa ao meu bem estar - é empírica, instrumental. Neste momento, é necessário esclarecer o que é este caráter empírico da razão, que a descaracteriza como prática (pura). O Kant atribuirá isto as nossas inclinações, ou seja, à tendência que possuímos, enquanto animais, a seguir as nossas paixões. Estas paixões, - onde encontramos a felicidade, que obviamente não é um ideal da razão -, equivale à matéria dos juízos; no entanto, um juízo para que seja moral deve ater-se à mera forma, de modo análogo às categorias do entendimento que correspondem à forma de um conhecimento em geral. Quando a minha vontade considera de algum modo minhas inclinações (a matéria) e não a mera forma, esta passa a ser heterônoma e não, livre (autônoma). Por outro lado, quando a minha vontade considera apenas a forma do juízo, esta é livre (autônoma) e, posso antecipar, autodetermina-se mediante uma máxima. Uma máxima é um princípio, bem como uma lei. A distinção entre as duas é a que, enquanto esta é objetiva, aquela é subjetiva. Agora, se esta máxima toma a forma de uma lei universal, em outras palavras, se esta máxima é universalizável, e a minha vontade se auto-determina por ela, a minha ação sob estas condições é dita moral. O fato é que, não somos seres puramente racionais (caso em que agiríamos sempre moralmente), somos, em parte, animais também. Daí, nestes casos, a saber, quando ainda cedemos às paixões, e as nossas ações se dão mediante um juízo empírico, tal máxima racional toma a forma de um imperativo (coerção) que, como se impõe a despeito de todo interesse empírico, é dito categórico. Uma das formas em que encontramos expresso o imperativo categórico é: "Age como se a máxima da tua acção se devesse tornar, pela tua vontade, em lei universal da natureza." (KANT, Immanuel. Fundamentação da Metafísica dos Costumes. P.59). Acredito que agora podemos compreender a aparente confusão quando reunimos, na forma de um imperativo, o princípio supremo da moralidade, a saber, a autonomia da vontade. Não se trata de uma coerção externa, o que implicaria em uma heteronomia (imperativo hipotético) e a perda do caráter moral da ação, mas antes uma auto-coerção, de tal modo que, quem obedece a um princípio racional, obedece a sua própria consciência e a mais ninguém. O imperativo categórico não determina ações, mas antes a minha própria vontade, mediante um princípio racional. Reescrevendo de modo a ressaltar o caráter livre da vontade, posso dizer que: a minha vontade se auto-determina seguindo livremente um princípio racional exposto na forma de um imperativo. Ou ainda, eu, enquanto legislador universal, erijo a minha vontade a um princípio racional. Mas, como isto não é espontâneo em mim, ou seja, não é natural, faz-se necessário que esta minha vontade racional, sobreposta a minha vontade individual (paixões e inclinações), assuma um caráter auto-coercitivo, ou de imperativo categórico.
Raoni Sousa Santos, Aluno do Curso de Licenciatura e Bacharelado em Filosofia da UFPA
BIBLIOGRAFIA KANT, Immanuel. Crítica da Razão Pura. Tradução Valério Rohden e Udo Baldur Moosburger. São Paulo: Ed. Nova Cultural, 3ª edição, 1987. KANT, Immanuel. Fundamentação da Metafísica dos Costumes. Tradução de Paulo Quintela. Lisboa, Portugal. Edições 70, LDA, 2007.
Escrito por raoniwolly às 18h30
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Conceito de Filosofia - Immanuel Kant
Para KANT, a filosofia é um conhecimento. Mas, qual conhecimento precisamente e como distingui-lo dos demais? Tratando-se de um conhecimento, convém primeiro, classificar os tipos de conhecimento. KANT os classifica segundo a sua origem objetiva, isto é, segundo as fontes; e segundo a sua origem subjetiva, ou seja, segundo a maneira como este pode ser adquirido pelos homens. No primeiro caso, todos os conhecimentos serão racionais ou empíricos; enquanto que, no segundo caso, serão racionais ou históricos. Conhecimentos racionais são aqueles a partir de princípios e que, portanto, são necessariamente a priori, ou seja, são universais e necessários. Universais, porque fazem abstração de toda contingência existente numa experiência ou situação e necessários, pois ditam como deve ser, ou melhor, como devemos agir em uma situação qualquer. Uma experiência possível é sempre uma experiência particular, assim sendo, não pode originar um conhecimento racional. Para KANT, as ciências particulares, responsáveis por tais estudos, estão no âmbito do entendimento, originam conceitos (as categorias), que não são princípios, de fato, como são as idéias da razão. Há duas espécies de conhecimento, ambas a priori, a saber, a matemática e a filosofia. Cumpre distingui-las. A distinção fundamental entre ambas está no uso que fazemos da razão. O conhecimento matemático é feito por construção de conceitos, enquanto que no filosófico há apenas uma discursividade por simples conceitos (relações lógicas entre conceitos). Os entes matemáticos são dados na intuição, enquanto que os da filosofia não. Por exemplo: na definição de triângulo, já está contido o seu conceito, e este pode ser encontrado no mundo real, como um caso particular daquele; o mesmo não ocorre com todos os entes filosóficos – para os metafísicos, por exemplo, como Deus e Alma, não há um correspondente empírico. Mas, dissemos que o conhecimento matemático ocorre por construção de conceitos, o que isto significa? Assumimos que conceitos construídos são aqueles apresentados na intuição a priori, alheia a qualquer experiência, ou ainda quando é dado na intuição o objeto adequado àquele conceito. Na matemática, usamos a razão in concreto. Isto constitui uma enorme vantagem da matemática com relação à filosofia. Enquanto que naquela os conceitos são intuitivos, nesta são discursivos – um conceito explicando outro conceito, de modo que não há nenhuma pedra-de-toque, ou dado sensível, que sirva de parâmetro para a veracidade do que afirmamos conhecer. Concluímos, portanto, que o conhecimento filosófico é racional por conceitos apenas. São, contudo, um tipo especial de conceitos, são antes de tudo princípios. Este é o conceito escolar (Schulbegriff), no entanto, não é o único, há outro que corresponde ao conceito do mundo (cósmico) (Weltbegriffe). Para este a filosofia é definida como a ciência dos fins últimos de nossa racionalidade que, por conseguinte, assume um valor inerente, pois nos proporciona uma satisfação íntima ao saciar uma necessidade imposta pela razão. Esta é a faculdade de pensar em sua máxima universalidade, e como tal, impõe-nos a necessidade de concluir o círculo das ciências particulares. Quero dizer, num movimento natural, dialético, somos compelidos a ir além da experiência, dizemos mesmo, transcendê-la. Ao fazer isso, a filosofia confere unidade sistemática a todas as outras formas de conhecimento, em especial às ciências particulares. Se o conhecimento filosófico não é científico (empírico), em strictu sensu, embora, frequentemente, abusamos da linguagem e falamos em “ciência filosófica”; e ainda, se os entes metafísicos – como Deus, Alma, Liberdade – não são dados sensíveis, não podem ser conhecidos, qual a sua utilidade? Se não encontramos utilidade teórica, há prática. Devemos, portanto, procurar alhures, a saber, na ética, filosofia prática, a verdadeira importância do conhecimento filosófico. No conceito cósmico, a filosofia nos é apresenta como o conhecimento da máxima suprema do uso da nossa razão. O homem, classificado como animal racional, somente será de fato racional, quando o princípio interno de escolha entre diversos fins, possibilitado pela liberdade, for o de máxima universalidade. Destarte, em última instância, a filosofia é conhecimento racional que relaciona, e dá significado a todos os demais conhecimentos; e nos mostra qual é o fim supremo aos quais todos outros fins se subordinam e são unificados.
Raoni Sousa Santos, Aluno do Curso de Licenciatura e Bacharelado em Filosofia da UFPA
BIBLIOGRAFIA KANT, IMMANUEL. Crítica da Razão Pura. Tradução Valério Rohden e Udo Baldur Moosburger. São Paulo: Ed. Nova Cultural, 3ª edição, 1987. KANT, IMMANUEL. Manual dos cursos de Lógica Geral. Tradução Fausto Castilho. Campinas, SP: Editora da Unicamp; Uberlândia, MG: Edufu, 2ª edição, 2003. (Coleção Multilíngües de Fiosofia UNICAMP – Série A – Kantiana I)
Escrito por raoniwolly às 12h55
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Do amor
No início do seu desenvolvimento, o homem não tem senão sensações; mais evoluído e depurado, passará a ter sentimentos; e o mais puro e sublime destes é o amor. Aqui, não me refiro ao amor vulgar, que mais se assemelha ao sexo, e do qual compartilham todos os animais e que, portanto, não nos presta como distinção destes. Refiro-me a distintiva característica humana de esquecer-se, enquanto indivíduo, para considerar o outro, em sua alteridade, com vista antes ao bem dele, do que ao seu próprio. Quando agimos abnegadamente, visando o bem geral, sem considerar, de nenhum modo, nós em particular, podemos afirmar que agimos amorosamente. Ora, não devemos confundir esta ação amorosa com o dever moral kantiano. Este é uma máxima, que originada na razão, nos impele a agir sempre objetivando a universalidade; implicando, em termos de sociedade, na perda das individualidades. A ação moral, assim como o Kant a concebe, corresponde a um dever, que tem como fim ele mesmo, e não a felicidade do indivíduo. Quem busca a felicidade não age por dever, por conseguinte, não age moralmente, e se assemelha mais aos animais irracionais. O amor supera o dever moral kantiano porque, de certo modo, o engloba. O agir amoroso, idem ao proposto pelo Kant, é um agir com vista ao bem de todos, mas nele não há a perda da individualidade. O sujeito amoroso se compreende como um ser distinto do outro, mas identifica a sua própria felicidade como sendo a do outro, destarte, ele fará tudo para o bem do outro, pois assim ele estará, consequentemente, trabalhando em prol da sua própria felicidade. Verifica-se, portanto, que o agir amoroso recupera a satisfação do agente moral, não necessariamente presente na filosofia kantiana. O sujeito amoroso não é necessariamente eudemônico, antes precisamente moralista; embora um não pressuponha o outro, como anteriormente foi dito. Não obstante, de modo geral, o ser amoroso sente prazer nos favores que realiza, no bem que pratica, nas aflições que estanca. O amor é a negação do egoísmo, opondo-se a este em sua essência. Quando a humanidade tiver compreendido esta nobre lei e, sobretudo, praticá-la, não encontraremos mais infelizes sobre a Terra e, então, reinará uma paz perpétua.
Raoni Sousa Santos, Aluno do Curso de Licenciatura e Bacharelado em Filosofia da UFPA
Escrito por raoniwolly às 12h50
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Blaise Pascal - O que é o Eu?
O que é o eu? Um homem que se põe à janela para ver os passantes, se eu estiver passando, posso dizer que se pôs á janela para ver-me? Não, pois não pensa em mim em particular. Quem gosta de uma pessoa por causa de sua beleza, gostará dela? Não, pois a varíola, que tirará a beleza sem matar a pessoa, fará que não goste mais; e, quando se gosta de mim por meu juízo (por minha inteligência), ou por minha memória, gosta-se de mim? Não; pois posso perder essas qualidades sem me perder. Onde está, pois, esse eu, se não se encontra no corpo nem na alma? E como amar o corpo ou a alma, senão por essas qualidades, que não são o que faz o eu, de vez que são perecíveis? Com efeito, amaríamos a substância da alma de uma pessoa abstratamente, e algumas qualidades que nela existissem? Isso não é possível, e seria injusto. Portanto, não amamos nunca a pessoa, mas somente as qualidades. / Que não se zombe mais, pois, dos que se fazem homenagear por seus cargos e funções, porquanto só se ama alguém por qualidades de empréstimo.
(Pascal, Pensamentos, 323. Os pensadores. São Paulo: Abril Cultural, 1973, p. 121).
Escrito por raoniwolly às 23h52
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O Amor é uma Falácia - M. Sulman, Parte 1 Eu era frio e lógico. sutil, calculista, perspicaz, arguto e astuto - era tudo isso. Tinha o cérebro poderoso como um dínamo, preciso como uma balança de farmácia, penetrante como um bisturi. E tinha - imaginem só - dezoito anos. Não é comum ver alguém tão jovem com um intelecto tão gigantesco. Tomem, por exemplo, o caso do meu companheiro de quarto na universidade, Pettey Bellows. Mesma idade, mesma formação, mas burro como uma porta. Um bom sujeito, compreendam, mas sem nada láem cima. Do tipo emocional. Instável, impressionável. Pior do que tudo, dado a manias. Eu afirmo que a mania é a própria negação da razão. Deixar-se levar por qualquer nova moda que apareça, entregar a alguma idiotice só porque os outros a segue, isto para mim é o cúmulo da insensatez. Petey, no entanto, não pensava assim. Certa tarde, encontrei-o deitado na cama com tal expressão de sofrimento no rosto que o meu diagnóstico foi imediato: apendicite. - Não se mexa. Não tome laxante. Vou chamar o médico. - Couro preto - balbuciou ele. - Couro preto? - disse eu, interrompendo a minha corrida. - Quero uma jaqueta de couro preto - disse. Percebi que o seu problema não era físico, mas mental. - Eu devia ter adivinhado - gritou ele, socando a cabeça - Devia ter adivinhado que eles voltariam com o Charleston. Como um idiota, gastei todo o meu dinheiro em livro para as aulas e agora não posso comprar uma jaqueta de couro preto. - Quer dizer - perguntei incrédulo - que estão mesmo usando jaquetas de couro preto outra vez. - Todas as pessoas importantes da universidade estão. Onde você tem andado? - Na biblioteca - respondi, citando um lugar não freqüentado pelas pessoas importantes da Universidade. Ele saltou da cama e pôs-se a andar de um lado para o outro do quarto. - Preciso conseguir uma jaqueta de couro preto - disse, exaltado - Preciso mesmo.
Escrito por raoniwolly às 05h30
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O Amor é uma Falácia - M. Sulman, Parte 2 - Por que, Pety. Veja a coisa racionalmente. Jaquetas de couro preto são desconfortáveis. Impedem o movimento dos braços. São pesadas, são feias, são ... - Você não compreende - interrompeu ele com impaciência - é o que todos estão usando. Você não quer andar na moda. - Não - respondi, sinceramente. - Pois eu sim - declarou ele - daria tudo para ter uma jaqueta de couro preto. Tudo. Aquele instrumento de precisão, meu cérebro, começou a funcionar a todo vapor. - Tudo? - perguntei, examinando seu rosto com olhos semicerrados. - Tudo - confirmou ele, em tom dramático. Alisei o queixo, pensativo. Eu, por acaso, sabia onde encontrar uma jaqueta de couro preto. Meu pai usara um nos seus tempos de estudante; estava agora dentro de um malão, no sótão da casa. E, também por acaso, Petey tinha algo que eu queria. Não era dele, exatamente, mas pelo menos ele tinha alguns direitos sobre ela. Refiro-me à sua namorada, Polly Spy. Eu há muito desejava Polly Spy. Apresso-me a esclarecer que o meu desejo não era de natureza emotiva. A moça, não há dúvida, despertava emoções, mas eu não era daqueles que se deixam dominar pelo coração. Desejava Polly para fins engenhosamente calculados e inteiramente cerebrais. Cursava eu o primeiro ano de direito. Dali a algum tempo, estaria me iniciando na profissão. Sabia muito bem a importância que tinha a esposa na vida e na carreira de um advogado. Os advogados de sucesso, segundo as minhas observações, eram quase sempre casados com mulheres bonitas, graciosas e inteligentes. Com uma única exceção, Polly preenchia perfeitamente estes requisitos. Era bonita. Suas proporções ainda não eram clássicas, mas eu tinha certeza de que o tempo se encarregaria de fornecer o que faltava. A estrutura básica estava lá.
Escrito por raoniwolly às 05h19
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O Amor é uma Falácia - M. Sulman, Parte 3 Graciosa também era. Por graciosa quero dizer cheia de graças sociais. Tinha porte ereto, a naturalidade no andar e a elegância que deixavam transparecer a melhor das linhagens. Á mesa, suas maneiras eram finíssimas. Eu já vira Polly no barzinho da escola comendo a especialidade da casa - um sanduíche que continha pedaços de carne assada, molho, castanhas e repolho - sem nem sequer umedecer os dedos. Inteligente ela não era. Na verdade, tendia para o oposto. Mas eu confiava em que, sob a minha tutela, haveria de tornar-se brilhante. Pelo menos valia a pena tentar. Afinal de contas, é mais fácil fazer uma moça bonita e burra ficar inteligente do que uma moça feia e inteligente ficar bonita. - Petey, - perguntei - você ama Polly Spy? - Eu acho que ela é interessante - respondeu - mas não sei se chamaria isso de amor. Por quê? - Você - continuei - tem alguma espécie de arranjo formal com ela? Quero dizer, vocês saem exclusivamente um com o outro? - Não. Nos vemos seguidamente. Mas saímos os dois com outros também. Por quê? - Existe alguém - perguntei - algum outro homem que ela goste de maneira especial? - Que eu saiba não. Por quê? Fiz que sim com a cabeça, satisfeito. - Em outras palavras, a não ser por você, o campo está livre, é isso? - Acho que sim. Aonde você quer chegar? - Nada, anda - respondi com inocência, tirando minha mala de dentro do armário. - Onde é que você vai? - quis saber Petey. - Passar o fim de semana em casa. Atirei algumas roupas dentro da mala. - Escute - disse Petey, apegando-se com força ao meu braço - em casa, será que você não poderia pedir dinheiro ao seu pai, e me emprestar para comprar uma jaqueta de couro preto? - Posso até fazer mais do que isso - respondi, piscando o olho misteriosamente. Fechei a mala e saí.
Escrito por raoniwolly às 05h18
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O Amor é uma Falácia - M. Sulman, Parte 4 - Olhe - disse a Petey, ao voltar na segunda feira de manhã. Abri a mala e mostrei o enorme objeto cabeludo e fedorento que meu pai usara ao volante de seu Stutz Beacat em 1955. - Santo Pai - exclamou Petey com reverência. Passou as mãos na jaqueta e depois no rosto. - Santo Pai - repetiu, umas quinze ou vinte vezes. - Você gostaria de ficar com ele - perguntei. - Sim - gritou ele, apertando a jaqueta contra o peito. Em seguida, seus olhos assumiram um ar precavido. - O que quer em troca? - A sua namorada - disse eu, não desperdiçando palavras. - Polly?! - sussurrou Petey, horrorizado. - Você quer a Polly? - Isso mesmo. Ele jogou a jaqueta pra longe. - Nunca - declarou resoluto. Dei de ombros. - Tudo bem. Se você não quer andar na moda, o problema é seu. Sentei-me numa cadeira e fingi que lia um livro, mas continuei espiando Petey, com o rabo dos olhos. Era um homem partido em dois. Primeiro olhava para a jaqueta com a expressão de uma criança desamparada diante da vitrine de uma confeitaria. Depois dava-lhe as costas e cerrava os dentes, altivo. Depois voltava a olhar para a jaqueta. Com uma expressão ainda maior de desejo no rosto. Depois virava-se outra vez, mas agora sem tanta resolução. Sua cabeça ia e vinha, o desejo ascendendo, a resolução descendendo. Finalmente, não se virou mais: ficou olhando para a jaqueta com pura lascívia.
Escrito por raoniwolly às 05h17
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O Amor é uma Falácia - M. Sulman, Parte 5 - Não é como se eu estivesse apaixonado por Polly - balbuciou. - Ou mesmo namorando sério, ou coisa parecida. - Isso mesmo - murmurei. - Afinal, Polly significa o que para mim? Ou eu pra ela? - Nada - respondi. - Foi uma coisa banal. Nos divertimos um pouco. Só isso. - Experimente a jaqueta - disse eu. Ele obedeceu. A jaqueta ficou bem larga, passando da cintura. Ele parecia um motoqueiro mal vestido da década de cinqüenta. - Serve perfeitamente - disse, contente. Levantei-me da cadeira e perguntei, estendendo a mão. - Negócio feito? Ele engoliu a seco. - Feito - disse, e apertou a minha mão. Saí com Polly pela primeira vez na noite seguinte. O Primeiro programa teria o caráter de pesquisa preparatória. Eu desejava saber o trabalho que me esperava para elevar a sua mente ao nível desejado. Levei-a para jantar. - Puxa, que jantar interessante! - disse ela, quando saímos do restaurante. Fomos ao cinema. - Puxa, que filme interessante! - disse ela, quando saímos do cinema. Levei-a para casa. - Puxa, que noite interessante - disse ela, ao nos despedirmos. Voltei para o quarto com o coração pesado. Eu subestimara gravemente as proporções da minha tarefa. A ignorância daquela moça era aterradora. E não seria o bastante apenas instruí-la. Era preciso, antes de tudo, ensiná-la a pensar. O empreendimento se me afigurava gigantesco, e a princípio me vi inclinado a devolvê-la a Petey. Mas aí comecei a pensar nos seus dotes físicos generosos e na maneira como entrava numa sala ou segurava uma faca, um garfo, e decidi tentar novamente.
Escrito por raoniwolly às 05h15
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O Amor é uma Falácia - M. Sulman, Parte 6 Procedi, como sempre, sistematicamente. Dei-lhe um curso de Lógica. Acontece que, como estudante de direito, eu freqüentava na ocasião aulas de Lógica, e, portanto, tinha tudo na ponta da língua. - Polly - disse eu, quando fui buscá-la para o nosso segundo encontro. - Esta noite vamos até o parque conversar. - Ah, que interessante! - respondeu ela. Uma coisa deve ser dita em favor da moça: seria difícil encontrar alguém tão bem disposta para tudo. Fomos até o parque, o local de encontros da universidade, nos sentamos debaixo de uma árvore, e ela me olhou cheia de expectativa. - Sobre o que vamos conversar? - perguntou. - Sobre Lógica. Ela pensou durante alguns segundos e depois sentenciou: - Interessante! - A Lógica - comecei, limpando a garganta - é a ciência do pensamento. Se quisermos pensar corretamente, é preciso antes saber identificar as falácias mais comuns da Lógica. É o que vamos abordar hoje. - Interessante! - exclamou ela, batendo palmas de alegria. Fiz uma careta, mas segui em frente, com coragem. - Vamos primeiro examinar uma falácia chamada Dicto Simpliciter. - Vamos - animou-se ela, piscando os olhos com animação. - Dicto Simpliciter quer dizer um argumento baseado numa generalização não qualificada. Por exemplo: o exercício é bom, portanto todos devem se exercitar. - Eu estou de acordo - disse Polly, fervorosamente. - Quer dizer, o exercício é maravilhoso. Isto é, desenvolve o corpo e tudo.
Escrito por raoniwolly às 05h14
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O Amor é uma Falácia - M. Sulman, Parte 7 - Polly - disse eu, com ternura - o argumento é uma falácia. Dizer que o exercício é bom é uma generalização não qualificada. Por exemplo: para quem sofre do coração, o exercício é ruim. Muitas pessoas têm ordem de seus médicos para não exercitarem. É preciso qualificar a generalização. Deve-se dizer: o exercício é geralmente bom, ou é bom para a maioria das pessoas. Do contrário está-se cometendo um Dicto Simpliciter. Você compreende? - Não - confessou ela. - Mas isso é interessante. Quero mais. Quero mais! - Será melhor se você parar de puxar a manga da minha camisa - disse eu e, quando ela parou, continuei: - Em seguida, abordaremos uma falácia chamada generalização apressada. Ouça com atenção: você não sabe falar francês, eu não sei falar francês, Petey Bellows não sabe falar francês. Devo, portanto, concluir que ninguém na universidade sabe falar francês. - É mesmo? - espantou-se Polly. – Ninguém? Contive a minha impaciência. - É uma falácia, Polly. A generalização é feita apressadamente. Não há exemplos suficientes para justificar a conclusão. - Você conhece outras falácias? - perguntou ela, animada. - Isto é até melhor do que dançar. - Esforcei-me por conter a onda de desespero que ameaçava me invadir. Não estava conseguindo nada com aquela moça, absolutamente nada. Mas não sou outra coisa senão persistente. Continuei.
Escrito por raoniwolly às 05h13
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O Amor é uma Falácia - M. Sulman, Parte 8 - A seguir, vem o Post Hoc. Ouça: Não levemos Bill conosco ao piquenique. Toda vez que ele vai junto, começa a chover. - Eu conheço uma pessoa exatamente assim - exclamou Polly. - Uma moça da minha cidade, Eula Becker. Nunca falha. Toda vez que ela vai junto a um piquenique... - Polly - interrompi, com energia - é uma falácia. Não é Eula Becker que causa a chuva. Ela não tem nada a ver com a chuva. Você estará incorrendo em Post Hoc, se puser a culpa na Eula Becker. - Nunca mais farei isso - prometeu ela, constrangida. - Você está bravo comigo? - Não Polly - suspirei. - Não estou bravo. - Então conte outra falácia. - Muito bem. Vamos experimentar as premissas contraditórias. - Vamos - exclamou ela alegremente. Franzi a testa, mas continuei. - Aí vai um exemplo de premissas contraditórias. Se Deus pode fazer tudo, pode fazer uma pedra tão pesada que ele mesmo não conseguirá levantar? - É claro - respondeu ela imediatamente. - Mas se ele pode fazer tudo, pode levantar a pedra. - É mesmo - disse ela, pensativa. - Bem, então eu acho que ele não pode fazer a pedra. - Mas ele pode fazer tudo - lembrei-lhe. Ela coçou a cabeça linda e vazia. - Estou confusa - admitiu. - É claro que está. Quando as premissas de um argumento se contradizem, não pode haver argumento. Se existe uma força irresistível, não pode existir um objeto irremovível. Compreendeu? - Conte outra dessas histórias interessantes - disse Polly, entusiasmada.
Escrito por raoniwolly às 05h12
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